Lua
É dado lê-la.
No vazio que vai lá fora,
Entremuros,
A Lua.
Mordida.
Ranhosa.
Ventosa.
Demorei os olhos,
Desnuda a Lua
[ se é que tal graça consente].
Assanhava as tardes,
Luz mordida.
Desmanchava-me ao vê-la,
Mar entre soluços.
Ao cair da noite,
Lua cheia de minhas sílabas.
É dado tê-la,
Não fossem tantas,
Loucas estrelas,
Sonhando amores.
Não fosse isso,
Sonhava a lua.
Contemplando céu desnudo.
Abraseado,
Rosa louca.
Diluindo-me,
Demorando os olhos,
Quando não estavas mais.
Não fosse tanto,
Não fosse isso,
Era quase,
Era menos.
Ficara eu, a Lua e as estrelas.
Algumas toneladas de amor,
Escondidas no poema.
CaRlInHa
Exaustão
Exausto anda o poema.
Disperso na volúpia e no medo.
Pra compor meu pó poema,
Carrego fardos, montanhas.
Entrelaçando sentimentos.
Escorrem na folha branca.
E sangra.
Indiferente a caneta.
Tão só, sangra.
A tinta engrossa,
Na folha que borra,
Inerte.
Nada faz o poema
O vago poema....
Na caneta que grita,
Desconhecido, esquecido,
O poema nu,
Indiferente a tudo,
Dorme.
CaRlinHa
Cúmplice
Cúmplice do seu corpo ausente.
Vivendo do amor sem presente.
Minha alma cruz, abismo,
Nos teus descompassados passos,
Vivem.
No meu jeito de quem ama,
Que se esconde em sua cama,
Descompassando vão,
Solitário azul.
Na carne viva do definitivo amor,
Sinto teus beijos, mordidas.
Pétalas vermelho, sangue,
Escorrem.
Na espera, ausente,
Ruge a tormenta,
Água dormida,
Sobrevivem de naufrágios.
Nas grandes pedras, roseiras..
No amor perfeito que há,
Vivendo de um nunca será.
Nos braços que se fecham,
Passos incertos,
Prantos....quantos prantos,
Meu pranto jogado na areia,
Suportando a luz do poema,
Meus sonhos irão pousar?????
CaRlInHa
Menino
Feito bandido.
Cheirando latido.
Ungindo o menino.
Roendo o umbigo,
Ele vai.
Olhando a mulata faceira,
De lindas e largas olheiras,
No rebolado que cola,
Decola e cai.
No grão de bico que bica,
Vai bicando, sai rolando,
De mão em mão.
Degustando a menina, pequena,
Gemendo o sonho que passa,
Recolhendo seus desejos,
Jogados no olhar de quem passa.
No botequim da esquina,
Fita as asas da menina,
Nas mãos traz sua sina,
Não cabem versos e rimas.
No morro do peteleco,
Não se ouve nem um eco.
É puro tiro menino,
Rolando de lado a lado.
Na linda canção da morte,
Logo vem seu passaporte .
A mulata fica esquecida,
Em meio daquela esquina.
Olhando naquela vitrine,
Vendo o vento de quem passa.
O menino chora no morro,
Vivendo na vida esquecida,
Os sonhos de quem já passou.
CarLiNhA
Melodias
Sonoras danças, harmoniosas vivem.
Cântico nu, no véu da minha boca.
Jorram em meu corpo ausente, puro pó.
Nas unhas que percorrem o meu decote,
Engolem as minhas retinas.
No nu branco, alucinam.
A cambraia engole a minha seda no colchão.
Nas pernas entrelaçadas,
Exalam a cor do amor.
Nas vozes puro êxtase.
Debruçados naquela mesa,
Em perfeita erudição.
No ápice sobre o fogão,
As paredes revestem o chão.
Orgasmos em profusão.
Degustam na boca que cola, rola.
No corpo que quente , sente.
Loucuras de amor, toda hora.
Doces melodias rolam.
Afora a chuva lá fora.
O teu corpo no meu corpo,
Rolam....
CaRlInHa
Domingo
Janela entreaberta.
Vento estala forte,
Na parede cor rosa.
O Sol tímido beija meu umbigo.
O vento solta um gemido.
Nos olhos de cor anil,
Paredes devoram o chão.
Na porta que no vão,
Fecham meus sonhos.
A igreja toca seu sino.
Na perna esguia,
O por do Sol sorria.
No quarto a sombra do dia.
Reflexo do ontem,
Jorram sobre mim.
Meus ais que a noite enxugou.
Todo domingo tem sino,
Tem missa, família reunida.
Afora a porta, enxugo minha costa,
Na água da dor que molhou.
Revejo meu corpo no espelho.
No calor que sobe em meus dedos.
Coloco no nu, a roupa.
Fecho a porta do quarto.
Lá fora Sol frio de dar dó.
Em minha garganta um nó.
Folhas secas do inverno caem.
A alma vazia dos cachorros, latem.
No azul intenso roem.
A igreja entreaberta, olho.
Pessoas em prantos , risos, choram.
O padre se põe a falar,
Se põe a orar, a cantar!!!
Olho o mundo.
Fecho a porta do meu quarto e fujo.
Da janela um dia mudo, sujo.
Escondo-me no colchão.
Beijo meu travesseiro.
Divago num mundo sem fundo.
No sono mudo, durmo.
CaRlInHa
Ectoplasma
Materializo.
Na ignorância do que sou.
Alma infecta, dor.
Ectoplasma voador.
De anjo arpoador,
Ao inferno sofredor,
Vaguei.
Em meio de anjos e demônios,
Rastejei.
Em meio de sua boca,
Colorindo suas tranças,
Mergulhei.
Etéreo sentimento,
Na orgia, deixei.
Não quero a noite,
Ouro luz , estrela.
Na vida que procuro,
Infecta ferida, vôo.
Obscuros saltos, correm.
Estrangulam a noite.
De dias escuros vivem.
Acordo a letargia.
Amebas, parasitas,
Voam.
Em meus passos rastejantes,
Insignificantes,
Doem...
CaRlInHa
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