Sua Imagem


Cabelo solto, decomposto.
De mãos atadas, vacilantes,
Vasculha seus restos,
Corpo aberto.
Clareando a noite escura,
Olha a vida,
De cima de um muro.
Trás os pés atados em brasa
E nas mãos estranhas asas.
Saboreia a vida feito nada,
Vivendo no deserto um universo feito.
Entre o rio e o tempo,
Caminha a própria enchente.
Nas águas tremulas, sua imagem.
Debalde gritam...
Debalde indagam...
A noite o encobre.
Com olhos de água,
Ensanguentado,
Contempla a luz do dia,
Contempla suas asas...


CaRlinHa

Na imensidão da memória,
Você mora.
A luz acesa do meu quarto,
Os meus olhos fatigados,
Mostram a minha face fria.
A face que o tempo deixou.
Agora são águas, distâncias,
Exílios em que naveguei.
Mordo a minha solidão.
O tempo brilha imóvel,
Entre areias e pedras,
As sombras carregam-me,
No invisível arco- iris do amor...

Carlinha

Divago no mundo,
Tempero de mel e fel,
Com marés baixas,
Rastejantes,
Subindo entre barquinhos,
Caravelas...
Sentada num banquinho,
Um mundo sem Sol,
Nem luar.
Sinto o impacto das ondas,
Num mundo sem água e ar.
Diluído no vento,
Sinto seu corpo latente,
Imponente sobre nós.
Lembranças de um barco quebrado.
Tu éras um lindo veleiro...
Fito o mar...
Apenas sinto...
No meu barco as lágrimas do passado,
As lágrimas do acaso...
Agora afago.

CaRlInHa

Homenagem ao meu pai que se foi
e que nessa Páscoa esteve comigo, eu sei...


Esperas...
Ausência triste de quem parte,
Levando a bagagem da vida,
No por do sol. noite fria.

Esperas...
Entre soluços e dores,
Estampada na fresta do tempo,
Rogando a Deus doces ventos.

Esperas...
Que no peito calam a dor,
Nas linhas se fazem presentes,
Esperas de amor somente.

Esperas...
De amor semente,
Atravancada na lápide fria,
Na cidade das almas,
Indefiníveis esperas,
Hoje pressentem...
Presentes...

CaRlInHa

Como se não bastasse o Sol,
Entrando naquela janela,
Revejo teu corpo nu,
Na porta entreaberta.
Saudades escorrem no vão,
Horas santas, doce aroma.
Quebrantos de amor,
Jorrando em minha cama.
Respiro o seu perfume com a brisa.
Cubro-te no meu manto santo,
E em vão a voz do meu amor te chama.
Meu corpo reclina, sombrio,
Nas nuvens do amanhecer.
Meu amor dormia...
Em meus sonhos morrerei sorrindo,
Resvalando esse sonho lindo...

CaRlInHa

Pudesse o milagre da vida,
Não fitasse escondido,
A dor da humanidade.

Pudesse a realidade,
Transformar a dor em alegria,
Viver longe a letargia,
E meu povo assim sorria.

Pés fincados no chão,
Num mundo sem luz, sem magia,
Percorrendo noite e dia,
No mundo uma vida vazia.

Na luz, o milagre do amor,
Transformando toda a dor,
Que enlameia,
Amargo insulto, sacrilégio.

Num templo augusto,
Esculpido de ouro,
Sem sacrifícios.
No amor...seu ofício...

CaRlInHa

Amanhece...
Versos acordam.
Andam
na ponta
dos pés.
Silenciam,
dormem
em pé.
Tomam
o seu café.
Cortando
as suas
arestas,
escalando,
a vida,
em festa.
Os versos procuram
o poeta.
O poeta dorme,
em seus versos...

CaRlInHa

Anjos...
Roçam o mundo.
Exalam o jasmim.
Rosas plantadas,
Atadas, fincadas em mim.
Amarelas,
Brancas,
Vermelhas.
São flores do meu jardim.
Doces filhos na vida colhi.
Doces flores na alma vivi...

CaRlInHa

Enterrado naquela casa,
Sob o pé de laranjeira,
Vivendo a sombra de um quarto,
Meus versos vão.
Na língua de fogo esvai,
Cai.
Escorre nos dedos,
A flor do desejo,
Postado em um beijo.
Pintando janelas e portas.
Jorrando sangue,
No corpo que verte.
Vive de luz e escuridão,
Jogado a própria sorte,
Em luto...
Na luz...seu coração...

CaRlInHa

Risca o céu,
As palavras.
Desenhando círculos,
Na linha fina do ouro.
Gotas de estrelas,
Na luz do orvalho.
No azul do céu,
Percorre moradas,
Dormindo nas águas do mar,
Sentado na areia da praia,
Sonhando com a luz do luar,
Vendo seus versos a cantar,
Pássaros a brincar.
Assim vivem as palavras.
Moram nos versos e postam as rimas.
Não importa qual seja o lugar.
As palavras...
Vivem...

CaRlInHa

Enquanto escrevo,
Corro o mundo,
Verbos, advérbios.
Debruço em minha casa,
Reviro minha alma.

Distancio-me no tempo,
Embora, passado, futuro
e presente,
Postem a todo momento.

Indago o mundo lá fora,
Enquanto aqui,
Alegria ou dor,
Por do sol ou luar,
Moram nas linhas nas mãos.

Fito a folha,
esquecida,
Na noite fria, lá fora.
Esperança malograda,
Nem nos versos podem morar.

Sem casa, sem sonhos,
Triste menino de rua...
Nas folhas de jornal
Dormem seu sono.
Seus sonhos...as folhas de jornal.
Tristes versos moram em seu caminhar...

CaRlInHa


Meus versos,
Morada de contradições.
Versos de mel e fel,
Sangue que jorra do céu.
Sementes de orvalho no peito.
Regados na luz do meu leito.
Viviam ardendo em flor.
Agora,
Sem aconchego,
Vivem de um porão...
poças...
Vivem no sono a canção,
Num mundo sem precisão.
Retalhos de um coração...

CaRlInHa

Afago teu corpo
quente.
Demente,
nem sente.
Extrapola
o meu ser.
Gemidos no ouvido,
Giros leves,
profundos.
Que chorem os fracos,
sementes.
Meu corpo arde
e exala.
Tombado fica o teu
corpo....
Em meio
dessa batalha.
Roendo naquela areia,
Um oceano de pó.
Cansaço...só...

CaRlInHa

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